quinta-feira, agosto 25, 2016

que você seja feliz

tem uma coisa que o budismo me chamou a atenção, que é bem óbvia, mas que deve passar despercebida pela maioria das pessoas que é: todos estão aqui, nesta vida, apenas buscando a felicidade e tentando se livrar do sofrimento. como eu disse antes, muito óbvio, né? tudo que a gente faz nessa vida, incluindo os “murros em ponta de faca”, que ocasionalmente damos, é para buscar satisfação e correr da tristeza e outros sentimentos ruins.

foi mantendo isso na cabeça, que, de certa forma, comecei a ver as pessoas ao meu redor de maneira diferente e tenho sentido uma espécie de alívio. tenho tentado julgar menos (o que é difícil, mas estou tentando) e tenho procurado apreciar mais as qualidades positivas dos outros. afinal, quando alguém faz uma besteira que nos incomoda é só por que ela estava tentando ser feliz do mesmo jeito que a gente sempre está, não é? fazer isso é muito dureza, principalmente considerando meu temperamento explosivo e um consideravelmente dramático.
 
um dos métodos que o budismo aponta para ajudar nesse processo é chamado de metabavana, a meditação da bondade amorosa ou amor universal. a prática é mais ou menos simples e não precisa que você fique na postura de meditação formal. basta desejar a felicidade e a liberação do sofrimento para você, para uma pessoa que você goste muito, para uma pessoa neutra (alguém que você vê com frequência, mas não conhece), uma pessoa com você tem dificuldades (parte hardcore) e depois estender esses desejos para todas as pessoas do mundo. existem algumas frases já pré-determinadas para ajudar quem está começando, tipo:

    que ____ seja feliz.

    que ____ não sofra.

    que ____ encontre as verdadeiras causas da felicidade.

    que ____ supere as causas do sofrimento.

    que ____ supere toda ignorância, carma negativo e negatividades.

    que ____ tenha lucidez.

    que ____ tenha a capacidade de trazer benefício aos seres.

    que ____ encontre nisso a sua felicidade.

(o traço ___ é o local onde você coloca o nome de alguém)

isso é só um guia, se preferir é possível que você crie as suas próprias frases.

o interessante da prática da metabavana é que você começa desejando essas coisas todas primeiro para você mesmo. pode parecer meio egoísta, mas é bem importante. nessa hora eu me confronto com tudo  que não aceito sobre mim mesma e sobre todos os momentos que eu preferiria ter agido de outro modo e percebo que eu também, do mesmo jeito que todo mundo, só errei por que estava buscando ser feliz e fugir do sofrimento. e cheguei a conclusão que muitas vezes eu me desaponto com as pessoas, por que exijo delas um nível altíssimo de perfeição que eu exijo de mim mesma. mas eu não sou capaz de atingir esse nível de perfeição, nem as outras pessoas. isso me ajudou muito a sair do processo depressivo que eu estava enfrentando há muito tempo e, inclusive, consegui largar os remédios e deixei de ir para terapia por que só estava falando com a psicóloga sobre como estava conseguindo entender melhor como minha mente funcionava e estava conseguindo me puxar para fora da espiral decadente.

imagina um mundo no qual todo mundo é feliz e não sofre? acho que não tem coisa melhor para se desejar. então vou continuar nessa onda e ver até onde eu chego.

agora, difícil mesmo, é desejar a felicidade para os motoristas barbeiros do trânsito desta cidade. hoje mesmo estava numa fila enorme de carros e veio uma criatura, pela contramão, e furou a fila. na mesma hora fiquei com ódio e fiquei xingando ele de tudo na minha mente, até que me dei conta que ficar com raiva dele só estava fazendo mal a mim mesma. então, fiz um pouquinho de metabavana pra ele, fiquei calma de novo e saí cantando no carro. cheguei no trabalho me sentindo ótima. :)

terça-feira, agosto 16, 2016

jesus, etc



eu costumava a criticar - e muito - meus amigos mais velhos que só escutavam músicas dos anos 80. isso foi no início dos anos 2000, mas, hoje, tenho medo de estar ficando igual a eles.

há uns 15 anos atrás, apesar da internet ainda estar "começando" e da velocidade ser muito lenta, eu vivi momentos muito legais, lendo sobre bandas no allmusic, baixando músicas (soulseek, oi?), escutando a rádio woxy e visitando tantos outros sites que não consigo lembrar o nome agora. era uma sensação bem boa, de que, a qualquer momento, eu podia descobrir a minha mais nova canção favorita. e foi nessa época que conheci quase todas as bandas que eu sou viciada até hoje... wilco, decemberists, tindersticks, flaming lips e tantas outras, que ou estavam gravando naquela época ou eram clássicos que até então eu não conhecia (como o imortal, nick drake).

naquela época eu era apenas uma estagiária e, com o valor da minha bolsa, eu só podia sonhar em ir ao primavera sound em barcelona. era quase masoquismo olhar a lista de bandas do festival, pois a grande maioria das bandas eu conhecia e gostava (umas mais, outras menos).

hoje em dia, já realizei o sonho de ir para o primavera duas vezes. vi flaming lips, pulp, nick cave, blur, interpol, of montreal, belle and sebastian e tantas outras bandas ótimas, que a carol de 2004 ia, com certeza, morrer de orgulho da carol de 2016.

mas o que me preocupa é que, de uns tempos para cá, eu tenho notado que parei nesse período da minha vida (o início dos anos 2000) do mesmo jeito que meus amigos ficaram parados nos anos 80. não é que eu seja obrigada a sempre procurar por bandas novas para gostar, não é isso. a verdade é que eu tenho sentido falta daquela "emoção" que era descobrir uma nova música linda.

além disso, olho para os pôsteres do primavera sound e, apesar de ainda conhecer muitas das bandas, não é a mesma coisa. sinto como se a maioria dos nomes da lista são coisas completamente desconhecidas. baixo playlists e mais playlists no deezer, procurando algo que me emocione, mas isso tem acontecido muito raramente. não acho que bandas legais novas estejam em falta. acho mesmo que o problema é comigo... estou ficando velha, chata e apegada as bandas que eu gostava aos vinte anos. só queria saber como fazer diferente.

(ps: o clipe e o título do post são de uma das primeiras músicas que ouvi do wilco - em 2002 - e uma das minhas preferidas até hoje.)

quarta-feira, julho 27, 2016

god bless america

eu sempre digo que quem decide o destino da minha próxima viagem é a promoção... e isso é verdade na maioria das vezes.

ano passado foram duas passagens que surgiram por preços quase irrisórios: 300 reais para brasília - amsterdã (ida e volta) e 100 doláres para porto alegre - genebra (também ida e volta). sorte minha que tenho minha companheira de aventuras, pois é só ligar para ela e 10 minutos depois já estamos com as passagens compradas. também tenho sorte de ter uma chefe ótima que sempre arruma um jeito para que eu possa marcar minhas férias de acordo com as promoções que eu acho.

antes que alguém pergunte (se é que alguém lê este blog), eu descubro a maioria dessas promoções acompanhando o site e o aplicativo do melhores destinos e, segundo meu tio, até desenvolvi uma nova patologia que é ficar o tempo todo falando das promoções de viagem que aparecem nas notificações do meu celular. :P

foi numa dessas minhas buscas por passagens aéreas baratas que acabei indo parar nos estados unidos de novo. sabia que iria para o canadá, por que já havia prometido a minha amiga, mas, para decidir de onde iria voltar, peguei a programação de viagem dos meus outros amigos e fiquei olhando qual combinação daria o menor preço. foi assim que comprei passagem de ida para toronto e volta de nova york. e, depois de cascavilhar ainda mais preços e destinos, resolvemos fechar a saga passando por washington d.c., philadelphia e nova york.

(ah... muitos poderão dizer que acabei gastando mais no final por que fiquei mais dias fora de casa e blablablá. mas para mim, o importante mesmo é viajar... e, se tiver na companhia de amigos, melhor ainda). 

são três anos seguidos que eu vou para os estados unidos todos os anos. não por que eu seja maluca pelo país, porém as coincidências da vida e das passagens baratas me levaram a isso. eu adoro nova york, é verdade... acho que posso ir milhões de vezes para aquela cidade que nunca vou enjoar, mas, por favor, se alguém me ouvir dizer que quero voltar para a flórida tão cedo, pode me amarrar no pé da cama até que eu mude de ideia, ok? (ainda bem que desta vez eu saí desse ciclo vicioso).

e o que eu posso dizer sobre essa parte americana da viagem? bem... adorei washington, principalmente por, apesar de ser a capital de uma das maiores potências do mundo, ter vários bairros arborizados com casinhas bonitinhas e coloridas em vez de trocentos arranhas-céus que mais parecem banheiros gigantes como aqui no recife. também adorei a philadelphia, ainda mais por ter ficado na casa de um amigo que nos levou para bater perna pela cidade inteira (foram mais de 20 km percorridos a pé em cada dia), que me fez ver um lado menos turístico da cidade... e se tem uma coisa que eu adoro fazer em viagem é andar sem destino para ver se consigo sentir um pouquinho da essência da cidade que eu estou visitando.

mas aprendi uma coisa muitíssimo importante: nunca mais viajar no verão (a não ser que seja para ficar num resort na beira da praia, tomando bons drinks). torrei demais em washington e isso acabou sendo desgastante demais. por sorte, peguei um tempo melhorzinho em philly e nyc, mas ainda assim estava quente. melhor mesmo é viajar num clima de 15 graus, com casaquinho leve e sem maquiagem derretendo.

também lembrei que, por mais que seja bom viajar, passar mais de 20 dias longe de casa acaba se tornando cansativo... até por que eu gosto de andar muito. eu acabo exagerando por que tenho essa loucura por viajar, mas preciso lembrar que viagens mais curtas e com menos escalas acabam sendo mais proveitosas. sem contar que, voltei tão cansada dessas últimas férias que o que eu mais preciso agora são férias das férias. :P

terça-feira, julho 05, 2016

blame canada

quando uma das minhas amigas de adolescência (e uma das maiores companheiras de farra) disse que iria fazer pós-doutorado no canadá, eu - imediatamente - garanti que iria visitá-la. mas só no verão... pois o canadá é frio demais e eu não tenho a menor vontade de virar um picolé.

apesar de ter prometido a visita, eu não tinha a menor ideia do que iria fazer lá. mas, assim mesmo, saímos do recife, eu mais três amigos para matar as saudades e nos aventurar pela região no calor.

cada vez mais acho que são as viagens que você cria menor expectativa, que acabam sendo as mais divertidas. em toronto, alugamos um carro e fomos para waterloo, onde minha amiga está morando. como ela não poderia passear conosco durante o dia, aproveitamos para fazer pequenas road trips pela província de ontário (por que as noites estavam reservadas às farras mais homéricas regadas a cerveja).

fizemos muitas coisas diferentes por lá: visitamos cidades muito charmosas e um  parque lindo construído em homenagem a shakespeare; fomos a mercados com verduras e frutas incríveis e várias comidinhas deliciosas; vimos carruagens pretas dos menonitas, uma espécie de povo amish da região, passando ao lado do nosso carro na estrada; conhecemos uma vila com cara de parque temático, toda voltada para o ski, na qual pegamos um bondinho pro topo da montanha para ter uma vista incrível do lago huron; percorremos praias de lago com cara de praia de verdade, praias de lago no meio das montanhas, cachoeiras e trilhas no meio do mato; chegamos de barco pertinho das quedas de niagara falls e tomamos o banho mais divertidos de nossas vidas;  e passeamos de bicicleta por entre vinícolas e uma cervejaria para fazer degustação. isso tudo sem incluir toronto (que merecia um post só seu).

a vista nas estradas era um show à parte: campos enormes de canola todos amarelinhos, fazendas de feno, de pinheiro, de vacas e de cavalos, cidadezinhas lindas de interior com casas tão grandes que só vendo para crer e os pores do sol mais incríveis na volta para waterloo.

o que mais me impressionou, entretanto, é que todas as cidades pelas quais passei, sejam elas grandes ou pequenas,  estavam decoradas com bandeiras do orgulho gay por estar se aproximando a parada de toronto (ou era uma época do ano de homenagem, talvez). eram bandeiras não só em lojas e casas particulares, mas nas prefeituras e outros prédios públicos. só assim para eu acreditar que estamos mesmo em 2016, como o justin trudeau fez questão de afirmar anteriormente. aliás, nunca vou me perdoar por ter estado em toronto um dia antes da parada e ter  perdido o primeiro ministro se jogando no desfile.

segunda-feira, junho 20, 2016

fiquei para titia

hoje está fazendo dois anos do dia que eu passei quase a noite inteira em claro na sala de espera de um hospital só para ver o rostinho da minha primeira e, até agora, única sobrinha (que depois se tornou minha segunda afilhada). foi um momento mágico quando ela apareceu na janela do berçário: apesar de ser gigante como a família do pai dela (52 cm e 4,100 kg), ela tinha no rosto todos os traços da família materna, a minha família... parecia uma miniatura do avô, toda gordinha e rosada, com olhinhos puxados e nariz pequenininho.

apesar de ter me apaixonado perdidamente à primeira vista, tenho que confessar que o fato de virar tia não foi algo que aceitei muito facilmente. eu já devia esperar que algo assim fosse acontecer em breve, até por que as duas irmãs mais novas já casadas e ter um filho é, teoricamente, o próximo passo.

o meu problema é que (vergonha de admitir, mas já admitindo) passei a vida inteira aprendendo a temer o fato de "ficar para titia". acho que no meu subconsciente tinha uma imagem horrível de uma mulher solitária, horrorosa, com verruga no nariz e tudo mais, e muito triste só por que a irmã mais nova tinha tido um filho e ela não. e para piorar, me peguei várias vezes aconselhando minha irmã a esperar, mais por medo do estigma do que por entender a loucura que estava rolando na minha cabeça.

demorou um tempinho, mas eu finalmente me dei conta da minha maluquice. primeiro, eu tenho uma vida ótima, amigos maravilhosos e ainda tenho conseguido realizar grande parte dos meus desejos sozinha, e, segundo, não posso bancar a vítima, pois estar solteira faz parte de várias decisões minhas, que, bem ou mal, me trouxeram até onde estou agora. e quando é mesmo que ter um homem e um filho vão me garantir felicidade absoluta?

eu, inclusive, me dei conta que nem sei se quero ter um filho mesmo. do mesmo jeito que colocaram esse "ficar para titia" na minha cabeça, será que também não colocaram esse história de ter que ter um filho também? tenho pensado muito nisso e talvez algum dia desses eu chegue numa conclusão (antes do relógio biológico disparar, espero).

a verdade é que eu adoro crianças. sempre adorei. participei até da criação de vários primos mais novos (tem toda uma horda de fãs de cultura nerd e música indie na família, por causa disso) e sou madrinha de duas meninas lindas. acho ainda que as crianças também têm uma facilidade enorme de ir com a minha cara: não consigo nem contar quantas vezes uma delas grudou em mim sem que eu tivesse feito nada. nem me acho muito boa nas brincadeiras, só pode ser minha cara de desenho animado. :P

mas não quero, de jeito nenhum, me transformar numa das minhas colegas de trabalho, cujos maridos não ajudam em nada e contratam babá, cozinheira, faxineira e, ainda, folguista, para dar conta do recado. nem muito menos tenho vontade de encarar uma produção independente. acho que só teria um filho se fosse com um pai que realmente quisesse ser pai. por que, na minha casa, eu tive um exemplo incrível: meu pai sempre ficava sozinho com três meninas pequenas no final de semana, enquanto minha mãe estava no plantão. não tinha essa história de folguista não.

por que eu estou falando isso tudo aqui apesar de estar morrendo de vergonha? por que eu penso nas outras mulheres que, assim como eu, ficam sofrendo por essas coisas. mas é muito difícil tirar do sistema uma coisa que você passou a vida inteira sendo treinada para repetir e eu queria mesmo poder ajudar a desconstruir essas ideias malucas que colocam na cabeça da gente. estou tentando começar com minhas afilhadas, que, se depender de mim, não vão perder nem meio segundo com esses dilemas.

agora, sou a titia mais feliz desse mundo por que tenho minha mariana. ela não me chama de titia, só "cauol", mas sou titia sim, com orgulho. não tem coisa melhor do que vê-la entrar correndo, toda estabanada, no quarto, gritando meu nome. meu maior desejo é que ela tenha uma vida sempre alegre como nossas tardes passeando de motoca no parquinho e fazendo amizade com todas as outras crianças que passam por perto.

e quero mais sobrinhos. muito mais! (só não sei se minhas irmãs estão dispostas a me dar. :P)