quarta-feira, outubro 19, 2016

beyond the sea

o que dizer sobre oito dias e sete noites a bordo de um cruzeiro rodando pelo mediterrâneo com drinks ilimitados ao lado de um dos meus melhores amigos?

há dias eu penso em escrever este post e não sai muita coisa.

 a viagem foi ótima... inesquecível, eu diria. mas acho que nem tão cedo toparia embarcar em outro navio desses.

principalmente, por que eu não me sentia livre o suficiente para caminhar pelas cidades em que parávamos. o tempo que ficávamos em terra era curto demais e eu me sentia obrigada a pegar aqueles ônibus de turismo para ter um visão geral do lugar. e, cá para nós, eu não gosto nem um pouco deles. prefiro estudar sobre a cidade com calma e andar doze horas por dia, durante vários dias, até acabar com a sola do pé.

além disso, tinha aquelas breguices que você já espera de um cruzeiro. e também muitos velhos, alguns brasileiros reaças e a grande parte dos jovens eram, na maioria, um bando de italianos inconvenientes. tenho que confessar que apesar de ter amado a itália na minha viagem do ano passado, fiquei com uma impressão péssima por causa dos italianos do navio... muita gente mal-educada e grosseira, que a melhor opção foi ficar longe deles.

mas se eu tou reclamando tanto, por que eu disse que foi uma viagem inesquecível?

por que com meu amigo do lado, acho que me divertiria até na programação mais roubada, quanto mais a bordo de um navio lindo, conhecendo lugares igualmente lindos e com todo o álcool que eu aguentasse consumir. :P

a gente se divertiu demais... principalmente com os funcionários que estavam a bordo. tinha gente de todo canto do mundo por lá, inclusive de lugares que eu nunca imaginava que iria conhecer alguém, como madagascar, congo, mianmar, índia e sérvia. quando a gente chegava nos bares ou restaurantes do navio, sempre tinha alguém que nos chamava pelo nome e vinha nos receber com um sorriso. nunca mais esqueço que "manahoana", é "olá" na língua de madagascar e que nosso amigo congolês gravou um áudio  para nós dizendo algo que soava como "brajavum, brajavum", que teoricamente também significa "olá" na língua dele. (e foi mal phyo de mianmar, mas apesar de você ter escrito num papelzinho como era na sua língua, depois de tantos mojitos, eu não sei onde coloquei). 

dentre os passageiros, os nossos preferidos foram tereza e miguel, um casal português, na faixa etária dos nossos pais, que encontrávamos toda noite no restaurante do navio. miguel era um jornalista aposentado, que já  tinha viajado para acompanhar as eleições em vários países pobres e, se não fossem os brasileiros reaças que sentavam também na nossa mesa, gostaria de ter conversado mais sobre a situação do brasil com ele. já tereza era bem pequeninha e falava pelos cotovelos, com seu cabelo branco sempre muito bem arrumado. eu não me cansava de ouvir as histórias dos seus milhares de empregos diferentes e de seus três netos ("duas raparigas e um pitôco").

nós também fazíamos questão de participar de todas as festas do cruzeiro. toda noite tinha uma. na festa branca, estávamos nós vestidos de branco; na festa italiana, nossas roupas eram da cor da bandeira da itália; na festa dos anos 60, 70 e 80 (meio amplo, né? :P), fizemos o nosso esforço pra não fugir do tema; e na festa de gala, lá estávamos nós com nossas roupas de ir para casamento. e por mais que isso tudo possa soar brega (e é... bastante!), a gente aproveitou da melhor maneira, rindo, dançando, puxando papo com as pessoas e provando os milhões de drinks diferentes (claro!).

para curar a ressaca, praticamente viramos sopa depois de tantas horas de molho na jacuzzi super quente do navio. outra opção era ver as festas na beira da piscina, jogados nas espreguiçadeiras e rir dos "gringos" tentando fazer passinhos ao som de funk carioca.

na hora de desembarcar, bateu uma tristezinha por deixar aquilo tudo pra trás. nem tava mais reclamando (tanto) dos italianos e já estava com saudade ficar olhando aquele marzão enquanto tomava café, de ver a luz da lua refletida naquelas águas durante à noite e de, praticamente todo dia, acordar numa cidade diferente. se não fosse por essa viagem, não teria conhecido malta agora (não estava na minha lista de prioridades) e gostei tanto da capital valetta, que já me vejo pensando em voltar para ter mais tempo para bater perna por lá.

tomamos um aperol spritz de despedida e deixamos o navio para o último dia de viagem em barcelona. e, pensando bem, talvez eu encare um outro cruzeiro, quem sabe, né? principalmente, se for um do weezer. ;)

sexta-feira, setembro 23, 2016

barcelona

quando cheguei a barcelona, tive a sensação de que estava voltando para casa. e que sensação boa.

saindo do aeroporto eu já sabia exatamente onde pegar o ônibus circular que leva à estação, cujo trem me deixa na porta do hotel quase hostel onde me hospedo toda vez e que tem um edifício construído por gaudí ao lado.

gosto tanto daquela cidade (e como fico hospedada numa região bem central) que quase não tenho vontade de pegar transporte público. saio andando na direção da cidade velha para me perder e me achar por entre as ruazinhas estreitas com seus prédios antigos. eu não sei explicar direito o que sinto quando estou por lá, é uma mistura de deslumbramento e pertencimento e, a cada cinco minutos, ficava sacudindo meu amigo e falando: “olha, gustavo, estou em barcelona de novo”!

a novidade boa é que minha hamburgueria preferida que fica na barceloneta (se chamava kiosco e agora é bacoa), abriu uma filial bem pertinho do meu hotel-casa e o sanduíche continua tão maravilhoso quando eu lembrava. o meu preferido é o machego que vem com queijo e cebolas caramelizadas e eu sempre peço que venha com pão australiano, bacon e batatas rústicas e com uma cervejinha epidor da moritz para acompanhar. engraçado foi que, enquanto eu fazia o meu pedido, o rapaz do caixa só fazia concordar comigo dizendo que era o pedido preferido dele também.

depois do hambúrguer, tive que mostrar ao meu amigo o meu pub preferido da cidade, o manchester, sujinho, escuro e com cerveja barata, no bairro el raval. de lá saímos de bar em bar, sem nenhuma indicação, só olhando pelo lado de fora os que mais nos agradavam provando cervejas espanholas ou não até terminar a noite na sala apolo, onde dançamos até as cinco da manhã. e o melhor de tudo foi que fizemos todo o percurso da ida e da volta andando, mesmo sendo noite.

é, com certeza, uma das cidades mais bonitas que já visitei. tá... eu já fui a paris e achei bem bonita também, mas eu acho que o ares catalães combinam muito mais comigo. daí, por favor, não me chamem de louca por falar que gosto mais de barcelona do que de paris, por que eu gosto mesmo. as construções de gaudí, a praia, o bairro gótico, as ramblas, o parque de montjuic...  todo o conjunto me agrada muito.

continuo gostando muito de lá, mesmo depois de ter passado uma experiência traumática com meu amigo que faleceu este ano. andei de ambulância, praticamente morei na sala de espera do hospital enquanto ele estava internado no semi-intensivo e chorei sozinha a noite, pedindo a barcelona que ela, por favor, não me decepcionasse. e ela não me decepcionou e eu trouxe meu amigo são e salvo de volta para casa. este meu retorno foi como fazer às pazes com a cidade e agora sinto que nada do que passei afetou o meu sentimento por ela.

na noite do último dia em barcelona, eu, simplesmente, não conseguia voltar para hotel. pouco importava quantas horas eu havia andado naquele dia, eu queria aquela última voltinha no quarteirão para implorar ao garçom do pub da esquina pela última saideira. se eu pudesse, ainda estava por lá caminhando...

segunda-feira, setembro 05, 2016

wanderlust

acho que essa é uma das minhas palavras preferidas do inglês. segundo um dicionário que eu acabei de olhar por aqui, trata-se de uma expressão derivada do alemão que significa um desejo muito forte, um impulso irresistível de viajar. e eu, com certeza, sofro profundamente de “wanderlust”, 24 horas por dia, 365 dias por ano. 

acho que só não viajo mais por que tenho que manter o meu emprego para pagar as contas das viagens. como uma boa capricorniana pé-no-chão, eu ainda preciso de um pouco de estabilidade e talvez por isso ainda não larguei tudo e fui embora de vez. mas estou sempre matutando sobre melhores maneiras de fazer minhas férias renderem para poder passar mais tempo viajando e trabalho como mesária em todas as eleições para ganhar dias de folga extra.

talvez o título dessa postagem devesse ser outro. algo como: “oops!... i did it again”. isso por que há poucos meses falei dos meus desejos de ano novo e como eu queria viajar menos para juntar dinheiro para comprar meu apartamento. mas eu ainda quero.

o problema (ou a solução?) foi que eu recebi uma proposta quase irrecusável para viajar desta vez de um amigo meu. aí meu lado viajante falou muito mais alto e lá vou partir de novo para europa ainda esta semana.  

vai ser minha primeira vez em um cruzeiro, que vai sair de barcelona, uma das cidades que eu mais adoro nesta vida. vamos passar também por marselha, gênova, nápoles, messina, la valetta e palma de maiorca. eu nunca antes sequer pensei concretamente em viajar de navio, mas, como disse, foi uma proposta quase irrecusável. ansiedade é boia aqui.

quinta-feira, agosto 25, 2016

que você seja feliz

tem uma coisa que o budismo me chamou a atenção, que é bem óbvia, mas que deve passar despercebida pela maioria das pessoas que é: todos estão aqui, nesta vida, apenas buscando a felicidade e tentando se livrar do sofrimento. como eu disse antes, muito óbvio, né? tudo que a gente faz nessa vida, incluindo os “murros em ponta de faca”, que ocasionalmente damos, é para buscar satisfação e correr da tristeza e outros sentimentos ruins.

foi mantendo isso na cabeça, que, de certa forma, comecei a ver as pessoas ao meu redor de maneira diferente e tenho sentido uma espécie de alívio. tenho tentado julgar menos (o que é difícil, mas estou tentando) e tenho procurado apreciar mais as qualidades positivas dos outros. afinal, quando alguém faz uma besteira que nos incomoda é só por que ela estava tentando ser feliz do mesmo jeito que a gente sempre está, não é? fazer isso é muito dureza, principalmente considerando meu temperamento explosivo e um consideravelmente dramático.
 
um dos métodos que o budismo aponta para ajudar nesse processo é chamado de metabavana, a meditação da bondade amorosa ou amor universal. a prática é mais ou menos simples e não precisa que você fique na postura de meditação formal. basta desejar a felicidade e a liberação do sofrimento para você, para uma pessoa que você goste muito, para uma pessoa neutra (alguém que você vê com frequência, mas não conhece), uma pessoa com você tem dificuldades (parte hardcore) e depois estender esses desejos para todas as pessoas do mundo. existem algumas frases já pré-determinadas para ajudar quem está começando, tipo:

    que ____ seja feliz.

    que ____ não sofra.

    que ____ encontre as verdadeiras causas da felicidade.

    que ____ supere as causas do sofrimento.

    que ____ supere toda ignorância, carma negativo e negatividades.

    que ____ tenha lucidez.

    que ____ tenha a capacidade de trazer benefício aos seres.

    que ____ encontre nisso a sua felicidade.

(o traço ___ é o local onde você coloca o nome de alguém)

isso é só um guia, se preferir é possível que você crie as suas próprias frases.

o interessante da prática da metabavana é que você começa desejando essas coisas todas primeiro para você mesmo. pode parecer meio egoísta, mas é bem importante. nessa hora eu me confronto com tudo  que não aceito sobre mim mesma e sobre todos os momentos que eu preferiria ter agido de outro modo e percebo que eu também, do mesmo jeito que todo mundo, só errei por que estava buscando ser feliz e fugir do sofrimento. e cheguei a conclusão que muitas vezes eu me desaponto com as pessoas, por que exijo delas um nível altíssimo de perfeição que eu exijo de mim mesma. mas eu não sou capaz de atingir esse nível de perfeição, nem as outras pessoas. isso me ajudou muito a sair do processo depressivo que eu estava enfrentando há muito tempo e, inclusive, consegui largar os remédios e deixei de ir para terapia por que só estava falando com a psicóloga sobre como estava conseguindo entender melhor como minha mente funcionava e estava conseguindo me puxar para fora da espiral decadente.

imagina um mundo no qual todo mundo é feliz e não sofre? acho que não tem coisa melhor para se desejar. então vou continuar nessa onda e ver até onde eu chego.

agora, difícil mesmo, é desejar a felicidade para os motoristas barbeiros do trânsito desta cidade. hoje mesmo estava numa fila enorme de carros e veio uma criatura, pela contramão, e furou a fila. na mesma hora fiquei com ódio e fiquei xingando ele de tudo na minha mente, até que me dei conta que ficar com raiva dele só estava fazendo mal a mim mesma. então, fiz um pouquinho de metabavana pra ele, fiquei calma de novo e saí cantando no carro. cheguei no trabalho me sentindo ótima. :)

terça-feira, agosto 16, 2016

jesus, etc



eu costumava a criticar - e muito - meus amigos mais velhos que só escutavam músicas dos anos 80. isso foi no início dos anos 2000, mas, hoje, tenho medo de estar ficando igual a eles.

há uns 15 anos atrás, apesar da internet ainda estar "começando" e da velocidade ser muito lenta, eu vivi momentos muito legais, lendo sobre bandas no allmusic, baixando músicas (soulseek, oi?), escutando a rádio woxy e visitando tantos outros sites que não consigo lembrar o nome agora. era uma sensação bem boa, de que, a qualquer momento, eu podia descobrir a minha mais nova canção favorita. e foi nessa época que conheci quase todas as bandas que eu sou viciada até hoje... wilco, decemberists, tindersticks, flaming lips e tantas outras, que ou estavam gravando naquela época ou eram clássicos que até então eu não conhecia (como o imortal, nick drake).

naquela época eu era apenas uma estagiária e, com o valor da minha bolsa, eu só podia sonhar em ir ao primavera sound em barcelona. era quase masoquismo olhar a lista de bandas do festival, pois a grande maioria das bandas eu conhecia e gostava (umas mais, outras menos).

hoje em dia, já realizei o sonho de ir para o primavera duas vezes. vi flaming lips, pulp, nick cave, blur, interpol, of montreal, belle and sebastian e tantas outras bandas ótimas, que a carol de 2004 ia, com certeza, morrer de orgulho da carol de 2016.

mas o que me preocupa é que, de uns tempos para cá, eu tenho notado que parei nesse período da minha vida (o início dos anos 2000) do mesmo jeito que meus amigos ficaram parados nos anos 80. não é que eu seja obrigada a sempre procurar por bandas novas para gostar, não é isso. a verdade é que eu tenho sentido falta daquela "emoção" que era descobrir uma nova música linda.

além disso, olho para os pôsteres do primavera sound e, apesar de ainda conhecer muitas das bandas, não é a mesma coisa. sinto como se a maioria dos nomes da lista são coisas completamente desconhecidas. baixo playlists e mais playlists no deezer, procurando algo que me emocione, mas isso tem acontecido muito raramente. não acho que bandas legais novas estejam em falta. acho mesmo que o problema é comigo... estou ficando velha, chata e apegada as bandas que eu gostava aos vinte anos. só queria saber como fazer diferente.

(ps: o clipe e o título do post são de uma das primeiras músicas que ouvi do wilco - em 2002 - e uma das minhas preferidas até hoje.)