quarta-feira, maio 11, 2016

escritora?

uma amiga minha, sempre que me encontra, diz que eu tenho que voltar a escrever poesias.

pois é... há uns quinze anos eu vivia escrevendo e, surpreendentemente, algumas coisas que eu escrevi, eu gosto até hoje.

sempre que minha amiga vem com essa história, eu confesso que fico meio intrigada. até por que, foi essa faísca de vontade de escrever que me fez voltar a este blog.

acho esse desejo foi algo que me acompanhou praticamente a vida toda. talvez tenha começado aos nove anos, quando ganhei a competição de frase tema da festa dos pais do colégio, e eu tive a sensação que podia escrever algo e as pessoas podiam gostar. a cara de orgulho do meu pai quando minha frase estava lá escrita bem grande no auditório e todos os outros pais estavam usando camisetas com ela foi impagável. ele até  emoldurou o convite da festa, que tinha a frase  na capa e meu nome embaixo.

depois, quando eu fiquei um tiquinho mais velha, comecei a escrever novelinhas para os colegas do prédio. era super divertido quando todo mundo, à noite, se juntava para ouvir um dos nossos amigos ler alto o mais novo capítulo que eu tinha escrito. era bem besta, mas todos gostavam muito. e eu escrevia como uma máquina.

mas aí meu pai, que continuava morrendo de orgulho de qualquer besteira que eu fizesse, resolveu mostrar minhas historinhas para um amigo escrito e imortal da academia pernambucana de letras. e, para piorar, o cara ainda quis conversar comigo. morri de vergonha, é claro, e, apesar de ele ter sido muito gentil e ter recomendado que eu lesse mais os clássicos para poder escrever melhor, depois disso eu travei.

apesar da boa vontade do meu pai, passei um tempão sem escrever mais nada depois dessa conversa. só que aquela faísca, que nunca me deixou em paz, me fez começar a escrever as tais poesias das quais minha amiga sempre fala alguns anos depois.

mas confesso que o bloqueio continua lá me fazendo ter vergonha das coisas que escrevo. e sempre que a vontade vem, começo a ler loucamente um monte de livros para ver se aprendo alguma coisas, mas não consigo escrever nenhuma linha de ficção ou de poesia. acho que, lá no fundo, penso que a única pessoa que vai gostar do que eu escrever é meu pai, que morre de orgulho de qualquer besteira que eu faça.

daí só consigo mesmo vir correndo pra este blog e usá-lo como cano de escape. e, sinceramente, não sei se conseguirei escrever alguma coisa além destes posts.

quarta-feira, abril 27, 2016

apenas respire

ontem, completei trinta dias meditando todos os dias (31 hoje) e é impressionante o efeito positivo da minha dedicação. não foi nenhum milagre, mas sinto que tenho passado menos tempo sendo consumida pela ansiedade, que sempre foi uma companheira constante na minha vida. e digo que me sinto melhor (não curada, infelizmente), principalmente porque, levando em consideração o cenário político absurdo do país, eu estou conseguindo lidar com mais calma as coisas que acontecem e que não são nem um pouco do meu agrado, nem estou saindo por aí brigando com os reaças mais próximos (como aconteceu na época das eleições).

todo dia, eu separo uns minutinhos, sento e simplesmente me concentro na minha respiração. de acordo com o que me ensinaram, a ideia não é esvaziar a cabeça dos pensamentos, mas observar quando eles surgem e deixá-los ir embora, sem se apegar a eles. o objetivo disso é aprender como a mente funciona e ver como estamos apegados a arrependimentos do passado ou estamos focados demais nas coisas que queremos para o futuro e nos esquecemos de viver o momento presente. e também esquecemos que quando o futuro chegar (se chegar), ele será o presente e a vida vai passar sem que a gente nunca aproveite de verdade.

quando comecei a meditar, cinco minutos era o máximo tolerável. ficava ansiosa até com o fato de ter que ficar parada: o nariz coçava, o pescoço doía, dava sono... nunca pensei que fosse tão difícil ficar sem fazer nada. mas, com o tempo, foi ficando mais fácil e, agora, já consigo passar mais de trinta minutos com certa facilidade.

o interessante é que a meditação para mim, assim como minha relação com o budismo, não tem nada de religioso. não tem nada a ver com fé em algo desconhecido, que vai melhorar minha vida num passe de mágica ou que me promete mundos e fundos para depois da morte. eu apenas tenho aprendido a viver melhor, com a vida que tenho hoje. e quanto mais eu frequento palestras e leio livros, mais eu sinto que estou no caminho certo.

ainda não sou capaz de olhar para eduardo cunha e imaginá-lo sentado na flor de lótus e ainda falta uns cinquenta anos para eu completar minhas cinco mil horas de meditação para alcançar a iluminação, mas um dia eu chego lá. :P

(ou não... desde que eu consiga viver melhor minha vidinha simples, tá de bom tamanho)

segunda-feira, abril 18, 2016

life is unfair, kill yourself or get over it

“i, on the other hand, still might not be considered a proper adult. i had been very grown-up in primary school. but as i continued through secondary school, i in fact became less grown-up. and then as the years passed, i turned into quite a childlike person. i suppose i just wasn't able to ally myself with time.”
(hiromi kawakami - the briefcase)

acho a vida adulta uma coisa realmente assustadora. não me adapto. acho que não sei o que estou fazendo a maior parte do tempo e me sinto triste por não me sentir muito "adequada".


mais assustador ainda é descobrir que as outras pessoas estão tão perdidas quanto eu por aí. por que, por mais que suas vidas pareçam aquele comercial de margarina no facebook, quando você chega mais perto e troca dois dedos de prosa, percebe logo que não é bem assim. muita gente decepcionada com as escolhas que fizeram na vida, alguns que têm uma carreira que muitos invejam estão insatisfeitas com seu trabalho, muitos casamentos que pareciam "para sempre", pelo menos para quem está do lado de fora, se acabam (ou se arrastam numa mentira eterna por que não se quer magoar o outro) e outras pessoas passam por perdas terríveis de uma hora pra outra, sem que haja maiores explicações... simplesmente acontece.


eu confesso que fico realmente impressionada quando tenho umas conversas sinceras com algumas pessoas. tenho certeza, inclusive, que se eu tivesse a oportunidade de trocar idéias, assim de peito aberto, com mais pessoas, sei que iria descobrir que muita gente arrasta uma frustração grande com a vida que leva e acha que só seria feliz em outras circunstâncias.


e qual a conclusão bastante óbvia disso tudo? é que o jeito que todos nós encaramos a vida está completamente errado. (pelo menos o meu está e muito). e andamos pelo mundo sozinhos e assustados, sem saber muito bem o que fazer dos nossos dias.


o que é ser adulto? o que é ser "adequado", afinal?


acho que a melhor resposta, até agora, veio das palestras no centro de estudos budistas que tenho frequentado. era algo como liberar aquilo que você pensa que é, para ser o que realmente é (não lembro as palavras exatas). pode parecer uma besteira, mas desde que escutei isso, alguma coisa mudou por aqui. e estou sentindo uma mini revolução ocorrendo dentro de mim.


isso não quer dizer que, num passe de mágica, tudo ficou melhor e eu estou me sentindo ótima no mundo. mas foi um primeiro passo... outro está sendo não esquecer que estamos todos juntos nesse barco furado, tentando ser felizes.

segunda-feira, março 14, 2016

redoma de vidro

"da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era ê gê, a fantástica editora, outro era feito de viagens à europa, áfrica e américa do sul, outro era constantin e sócrates e átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés." (sylvia plath)

nos últimos tempos, só tenho conseguido me dedicar ~ de verdade ~ a assistir séries de tevê bem bestas. e foi assistindo "master of none" no netflix, série super lesa, mas ótima nos meus padrões atuais, que, no último episódio, me fez dar de cara com a indicação desse livro, o único romance de escrito por sylvia plath: a redoma de vidro.

assustadoramente, por saber da estória de vida da escritora, me identifiquei demais com a estória (piorou quando descobri que foi uma espécie de autobiografia que ela publicou sob um pseudônimo). mas é exatamente assim que venho me sentido nos últimos anos, com milhares de possibilidades de vida maravilhosas se apodrecendo na minha frente sem que eu consiga fazer nada a respeito.

acho até que a situação se agravou substancialmente com perda do meu amigo, mas é algo já antigo. não consigo evitar, mas, o tempo inteiro, fico observando as vidas das pessoas à minha volta para tentar descobrir o que as faz levantar da cama todo dia e ir estudar, trabalhar ou sei lá o quê.

quanto a mim, adoro viajar e planejar minhas viagens, mas não posso passar todos os meus dias viajando... então, o que fazer no meio tempo? assim, percebi que comecei a me tornar numa pessoa chata, sempre muito deprimida.

mas agora resolvi tentar virar o jogo. os meus dias têm que ser mais divertidos e, se estudar para um concurso melhor não está me fazendo feliz, é por que eu estou escolhendo o caminho errado. a primeira atitude foi me matricular num curso de alemão. por quê? por que eu queria há um tempão e nunca me permitia.

sei que ainda não posso largar tudo para fazer um curso para aprender a fazer massa em roma, mas espero ter a coragem de fazer o que for preciso, quando descobrir o que realmente quero. só não posso continuar sendo a mulher que fica olhando os figos apodrecerem e caírem dos galhos da árvore...

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

como dizer adeus?

então, meu amigo se foi.

não adiantou encher o saco dos médicos ou tentar barganhar com deus. ele foi piorando, piorando, passou uma semana declarando amor para todos os amigos na uti, depois piorou mais ainda e, finalmente, não aguentou mais.

por mais que eu soubesse que a saúde dele era extremamente frágil, eu não estava preparada para isso. achava, sei lá, que ele fosse durar pelo menos mais uns dez anos. ou fosse virar semente.

nem mesmo lá em barcelona, quando ele ficou internado no semi-intensivo após uma hemorragia interna, quando só tinha euzinha lá com ele, me passou pela cabeça que ele pudesse morrer. eu - sabia - que ele ia ficar bom e eu só tinha que resolver como pagar o hospital. felizmente, tudo deu certo e eu o devolvi, são e salvo, para a família dele.

mas, desta vez, eu não consegui.

a vida está estranha sem ele. me sinto muito só e tenho muito medo. me sinto desprotegida. por que, por mais que ele tivesse as suas inúmeras limitações, ele cuidava muito mais de mim do que eu dele. e sem pedir nada em troca, além da minha amizade.

tem horas que parece mentira. parece que ele só está passando por aquelas fases que não pode sair muito de casa e que, logo logo, vai estar por aí de novo. mas tem outras que a realidade vem como uma avalanche e eu nem tenho lágrimas suficientes para chorar tudo o que preciso.

às vezes, acho que devia ter dito mais como ele era importante para mim. mas, por outro lado, acho que não precisava dizer nada. que, no meio de toda a minha tagarelice, ele escutava o que o meu coração estava dizendo.

perdi meu maior companheiro para passeios sem futuro. de ir pro cinema, sem fazer check-in, para ninguém saber. para comer cachorro-quente no domingo à noite. de ir almoçar comigo nos dias que eu era obrigada a passar o dia inteiro no trabalho e fazer a experiência ser bem menos traumática. para fazer companhia nos momentos mais difíceis e, mesmo que eu não conseguisse dizer o que estava passando para ele, me ajudar como ninguém mais conseguia. além disso, só ele para me acompanhar cantando hefner aos berros ou imitando o dueto de ben folds e regina spektor e continuar gostando de mim do mesmo jeito.

falando em música, impossível não lembrar daquela fila interminável no detran e a gente cantando "death to everyone" dentro do carro e rindo por horas. pois é... "death to everyone is gonna come...", mas preferia que eu não tivesse que ter visto você ir primeiro.